O capítulo anterior terminou com uma frase que já anunciava este: no fundo, quem você é é a soma total da sua memória. Só que aí surge um problema que eu nunca tinha formulado direito. Se o cérebro é um sistema que se reconfigura sem parar, que redesenha os próprios mapas o tempo todo, como é que alguma coisa consegue permanecer guardada lá dentro por cinquenta anos? Como um sistema que muda sempre consegue lembrar? Esse capítulo é sobre isso, e ele derruba de uma vez a ideia de que memória é arquivo.

Por que o antigo resiste mais que o recente
O capítulo abre com uma observação que qualquer pessoa que já conviveu com alguém com demência reconhece: as memórias recentes desaparecem enquanto as da infância continuam vivas e detalhadas. Em 1882 o psicólogo francês Théodule Ribot registrou esse padrão, e ele leva o nome dele até hoje. Memórias mais antigas são mais estáveis que as mais recentes.
É por isso que muita gente, no fim da vida, volta para a língua da infância. Quando Albert Einstein morreu em um hospital de Princeton, em 1955, todo mundo quis saber quais tinham sido as últimas palavras dele. Nunca vamos saber. Não foi por falta de alguém no quarto: a enfermeira estava lá, mas ele falou em alemão, a língua materna dele, e ela só falava inglês.
O Eagleman chama atenção para o quanto isso é estranho. Nenhum outro sistema de armazenamento funciona assim. Instituições esquecem as gestões antigas, escolas correm atrás das tendências recentes, prefeituras se gabam do que fizeram no último ano e não do que fizeram no século passado. Só o cérebro faz ao contrário, e faz de propósito. Entender por que é entender como a memória funciona.
Onde mora uma lembrança
Nos anos 1920, o neurobiologista Karl Lashley, de Harvard, teve uma ideia direta. Se ele ensinasse um caminho de labirinto a um rato, deveria ser possível apagar essa memória cortando o pedaço certo do cérebro do animal. Bastava achar o ponto exato.
Ele treinou vinte ratos, e depois fez em cada um deles um corte em uma região diferente do córtex. Depois da recuperação, testou todos de novo. E o experimento fracassou completamente: todos os ratos lembravam o caminho. Nenhum esqueceu.
Esse fracasso é um dos mais produtivos da história da neurociência. Ele revelou que a memória do labirinto não estava localizada em lugar nenhum, estava distribuída por toda parte. Como o Eagleman resume, guardar memória não é como um arquivo com gavetas, é mais parecido com computação em nuvem, espalhada por muitos servidores e com bastante redundância.
O inimigo da memória não é o tempo
Agora o problema de verdade. O cérebro aprende fortalecendo conexões entre células que se ativam juntas. É um mecanismo excelente para gravar. O problema é que ele continua sendo excelente para gravar, sempre, e portanto continua sobrescrevendo o que já estava gravado.
É exatamente isso que acontece com redes neurais artificiais. Elas viram o que ele chama de lama de memória: o registro anterior fica borrado pelo registro seguinte, tão rápido que você não conseguiria lembrar como uma peça de teatro começou quando chegasse ao fim do primeiro ato.
Cérebros de verdade não fazem isso. Ler um livro novo não apaga o nome da sua companheira, aprender uma palavra nova não deixa o resto do seu vocabulário um pouco pior. E a frase que sintetiza o capítulo é essa: o inimigo da memória não é o tempo, são outras memórias. Uma lembrança não precisa ser protegida da passagem do tempo, precisa ser protegida da invasão das lembranças seguintes.
O cérebro resolve isso de três formas.
Primeira solução: não mudar tudo de uma vez
A flexibilidade não fica ligada o tempo todo em todo lugar. Ela liga em pontos específicos, guiada pela relevância, exatamente o que a gente viu no capítulo 6 desta série.
Experiências viram memória quando são pertinentes para a vida do organismo, e principalmente quando estão ligadas a um estado emocional forte. Você grava o nome de um colega novo, uma notícia sobre a sua mãe, uma informação que muda o seu dia. Você não precisa gravar a placa da rua, a cor da camisa de quem passou, o desenho das rachaduras da calçada. Se tudo fosse gravado, a rede afundaria na tal lama.
Segunda solução: uma parte do cérebro ensina a outra
A segunda saída é não deixar a memória onde ela se formou. É como um galpão que continuaria recebendo caixas até lotar, a não ser que fosse despachando o que chega.
Em 1953, um paciente de vinte e sete anos chamado Henry Molaison passou por uma cirurgia para tratar epilepsia, e nela o hipocampo foi removido dos dois lados. Depois da operação ele perdeu a capacidade de formar memórias novas. Mas as memórias anteriores à cirurgia estavam praticamente intactas, e ele ainda conseguia adquirir certas habilidades novas, mesmo sem lembrar de tê-las aprendido. Os estudos detalhados de Brenda Milner e colegas mostraram o essencial: o hipocampo é necessário para aprender, e não para guardar o que já foi aprendido.
O papel dele é temporário. Ele repassa o que foi aprendido para o córtex, que guarda de forma mais permanente. E a proposta de como isso acontece é linda: o armazenamento estável não se consegue na primeira vez que o padrão atravessa o córtex. O hipocampo precisa reativar aquele traço várias vezes, reapresentando o padrão ao córtex repetidamente, até que ele fique fixado. Depois de instalada no córtex, a memória vai ganhando estabilidade com o tempo.
Isso vale para habilidade também. Quando você aprende um movimento novo, no começo precisa de atenção e esforço grandes. Depois de muitos dias de prática, você não precisa mais pensar. Não é que ficou mais fácil no mesmo lugar: as áreas envolvidas no aprendizado motor foram passando o aprendizado para outras estruturas. Automatizar uma habilidade é, literalmente, mudá-la de lugar no cérebro.

Terceira solução: a memória não está só nas sinapses
A terceira parte é a mais provocativa. Depois de décadas estudando a mudança nas sinapses, sabemos que ela é necessária para aprender, mas não temos evidência de que ela seja suficiente. O Eagleman levanta a possibilidade de que boa parte do que a gente mede nas sinapses seja consequência do armazenamento, e não o mecanismo raiz.
Os argumentos são bons. Se aprender apenas ajustasse a força de sinapses já existentes, não deveríamos ver mudanças grandes na estrutura do cérebro, e vemos: em quem aprende malabarismo, em estudantes de medicina em época de prova, em taxistas que decoram as ruas de Londres. Além disso, neurônios novos continuam nascendo no hipocampo adulto e se inserindo na rede, o que deveria bagunçar todo o padrão delicado de sinapses, e não bagunça. Esses neurônios novos não são acidentais: quando um rato é treinado em uma tarefa que depende do hipocampo, o número deles dobra.
E há ainda a camada mais lenta de todas, a da expressão dos genes, que a experiência também modifica. A experiência com o mundo entra por baixo da pele até o nível de quais genes ficam mais ativos e quais ficam silenciados.
Ele faz uma autocrítica bem-humorada da própria área: a neurociência se concentra nas sinapses porque é o que a gente consegue medir com a tecnologia atual, como o bêbado que procura a chave embaixo do poste porque ali tem luz.
Camadas de ritmo
Aqui está a ideia que amarra o capítulo inteiro. O escritor Stewart Brand propôs que, para entender uma civilização, você precisa olhar várias camadas funcionando ao mesmo tempo em velocidades diferentes. A moda muda rápido. Os negócios mudam mais devagar. A infraestrutura, mais devagar ainda. As leis mudam com muita resistência. A cultura se move no tempo dela. E a natureza, no mais lento de todos.
As camadas conversam: as rápidas oferecem novidade às lentas, e as lentas dão estrutura e freio às rápidas. A força do conjunto não vem de nenhuma camada isolada, vem da interação entre elas.
O cérebro funciona assim. As camadas vão de cascatas bioquímicas velocíssimas até mudanças lentas de expressão gênica, e a mudança fica distribuída ao longo desse espectro de tempo, em vez de existir ou não existir.
O exemplo que ele dá é o de alguém que aprende língua de sinais por causa de uma paixão, fica quase fluente, perde o contato e, anos depois, tem certeza de que esqueceu tudo. Quando a chance aparece de novo, o que levou dois meses da primeira vez leva três dias. A economia de tempo entre a primeira e a segunda vez prova que algo continuou guardado durante todos aqueles anos sem prática. As camadas rápidas soltaram, as profundas se recusaram a abrir mão do investimento lento que tinham feito.
O mesmo aparece em astronautas. Quem volta de uma missão longa não sai da cápsula andando normalmente, precisa reaprender a andar sob gravidade. Mas reaprende rápido, não recomeça da infância. E o desempenho logo depois do pouso revela o tamanho dessa reserva escondida.
É essa arquitetura em camadas que finalmente explica a observação de Ribot, lá do começo. As memórias antigas são mais estáveis porque tiveram tempo de descer para as camadas lentas. E é por isso que memória nova nenhuma chega em terreno vazio: o que você aprende hoje precisa caber no que você já tem, e não o contrário.
O que isso tem a ver com Yoga
Três coisas, e a primeira é um alívio.
No capítulo 7 eu escrevi que parar de usar uma região do corpo faz o território dela encolher, e isso continua verdade. Mas este capítulo acrescenta a outra metade da história: encolher o território não é o mesmo que apagar o aprendizado. Quem praticou por anos e parou não voltou à estaca zero. Voltou para uma condição em que as camadas rápidas soltaram, e as lentas seguraram. É por isso que o retorno é desconfortável e ao mesmo tempo surpreendentemente veloz. O corpo parece estranho nas primeiras semanas, e de repente algo destrava numa velocidade que não teria sentido se você estivesse mesmo começando de novo. Você não está.
A segunda é sobre repetição, e ela reabilita uma coisa que a gente às vezes trata com desprezo. Repetir não é falta de criatividade. Se a consolidação depende de o padrão ser reapresentado muitas vezes até se fixar, a repetição é literalmente o mecanismo pelo qual uma habilidade sai do lugar caro e vai para o lugar barato do cérebro. E quando ela chega lá, a atenção que estava presa na execução fica livre para outra coisa. Esse é, na prática, o momento em que a pessoa para de pensar em onde colocar o pé e começa a perceber a respiração, o esforço, o próprio estado. Essa passagem não é misteriosa, é mudança de endereço.
A terceira é o que isso significa para quem ensina. Se experiências viram memória quando são relevantes, e se o que é novo precisa caber no que já existe, então a mesma instrução não produz o mesmo efeito em duas pessoas diferentes. Cada aluna encaixa o que você diz na cidade de memórias que ela já construiu. Por isso a mesma frase funciona para uma e não diz nada para outra, e por isso a boa condução não é repetir a instrução mais alto, é encontrar o encaixe.
O Eagleman fecha o capítulo com uma observação que eu quero deixar aqui, porque vale para qualquer pessoa que ache que já aprendeu demais para aprender mais. Muitos estudantes de medicina se preocupam achando que, se aprenderem mais um fato, outro vai cair. Não é assim que funciona. A cada coisa nova que você aprende, melhor você fica em absorver a próxima coisa relacionada.
Se você quer aprender a ensinar levando em conta como uma habilidade realmente se instala em alguém, é exatamente isso que ensinamos na YogIN® Academy.
No Capítulo 11 eu continuo a releitura. Acompanhe o blog para não perder.