Cérebro em Ação, de David Eagleman (Capítulo 9): por que fica mais difícil aprender com a idade

Livros Neurociência | 29 jul 2026 | Daniel De Nardi


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No capítulo anterior o Eagleman mostrou que a estabilidade do cérebro é uma guerra empatada, e que todo território lá dentro é disputado o tempo todo. Agora ele encara a pergunta que sai naturalmente disso: se a disputa nunca acaba, por que aprender fica mais difícil com a idade? Por que uma criança de sete anos absorve um idioma inteiro sem sotaque e um adulto passa dez anos numa língua nova e continua sendo reconhecido pelo jeito de falar? Esse capítulo tem a resposta mais honesta que eu já li sobre isso, e ela não é a que a gente costuma ouvir.

Capa do livro Cérebro em Ação, de David Eagleman (Editora Rocco)
Edição brasileira de Livewired, pela Rocco.

A gente nasce muitos e morre um só

O capítulo começa com uma frase do Heidegger que o Eagleman usa como chave: todo homem nasce como muitos homens e morre como um só. É disso que se trata.

O bebê nasce com pouquíssimas habilidades prontas e uma enorme capacidade de mudança. O adulto tem o contrário: domina tarefas específicas com uma competência que o bebê não sonha ter, e paga por isso em flexibilidade. Existe uma troca entre adaptabilidade e eficiência. Conforme o seu cérebro fica bom em certos trabalhos, ele fica menos capaz de encarar outros.

Um dado antigo mostra isso de um jeito cru. Nos anos 1970, o pesquisador Hans-Lukas Teuber acompanhou 520 soldados que tinham sofrido traumatismo craniano na Segunda Guerra, quase trinta anos depois do ferimento. A variável que mais explicava a recuperação não era o tamanho da lesão nem o local exato, era a idade da pessoa quando se feriu. Quanto mais jovem, melhor a recuperação. Quanto mais velho, mais permanente o dano.

O Eagleman explica isso com uma imagem de mapa-múndi. As fronteiras do mundo mudavam muito mais facilmente há cinco mil anos do que hoje. Depois de séculos de disputa, com tratados, instituições e armas de destruição em massa, as fronteiras se travaram. É o que acontece no cérebro: depois de anos de disputa de fronteira, os mapas neurais vão se solidificando. Um cérebro mais velho não consegue reatribuir com facilidade territórios já resolvidos, enquanto um cérebro no começo das suas guerras ainda consegue reimaginar os próprios mapas.

A porta que se fecha

A metáfora que ele usa para o período sensível é a de uma porta se fechando. Enquanto ela está aberta, mudanças em larga escala são possíveis. Depois que fecha, acabou.

Os exemplos são bem concretos. A cirurgia de remoção de um hemisfério, que a gente viu no primeiro capítulo com o caso do Matthew, em geral só é recomendada em pacientes com menos de oito anos, e o Matthew tinha seis, já perto do limite. Danielle, a menina encontrada em uma casa na Flórida depois de anos de negligência extrema, teve um prognóstico ruim por uma razão principal: foi encontrada tarde demais.

No caso do idioma, o exemplo que ele dá é ótimo. A atriz Mila Kunis nasceu na Ucrânia e viveu lá sem falar inglês até os sete anos, e não tem sotaque perceptível. O Arnold Schwarzenegger chegou aos Estados Unidos com vinte e poucos anos e nunca perdeu o sotaque austríaco. A regra aproximada é essa: quem chega antes dos sete alcança a fluência de nativo, entre oito e dez chega perto, e depois da adolescência o sotaque tende a ficar para sempre. A capacidade de se transformar sonoramente em outra cultura é uma porta que fica aberta por cerca de uma década.

No olho é a mesma coisa. O tratamento do desalinhamento ocular que a gente viu no capítulo anterior funciona dentro dos primeiros seis anos. Depois disso, a visão daquele olho não volta mais. Como ele escreve, as estradinhas de terra do cérebro já foram pavimentadas e viraram rodovias.

Trilha de terra que se transforma progressivamente em rodovia iluminada em teal, representando vias neurais que se consolidam com o uso
O que era trilha vira caminho batido, depois estrada, depois rodovia difícil de mudar.

Não é uma porta, são muitas

E aqui o capítulo dá o salto que eu não esperava. O Eagleman diz que a metáfora da porta é útil, mas incompleta, porque não existe uma porta só. Existem muitas, e elas fecham em ritmos diferentes.

Ele lembra dos gansos de Konrad Lorenz, dos anos 1930, que seguiam o primeiro ser que viam ao nascer. A janela desse comportamento fecha em pouquíssimo tempo. Mas os mesmos gansos continuam aprendendo a vida inteira onde fica o rio, onde encontrar comida, quem é quem no bando. Uma porta fechou cedo, e várias outras seguiram abertas.

No cérebro adulto isso aparece de forma bem clara. Em macacos adultos com lesões na retina, pesquisadores foram procurar reorganização no córtex visual e não encontraram mudança mensurável nenhuma: o tecido que ficou sem sinal continuou sem função. Enquanto isso, o córtex motor e o somatossensorial continuam plásticos, e é por isso que uma pessoa de cinquenta anos aprende a andar de snowboard ou a voar de asa-delta.

A pergunta que ele formula é justamente essa: por que uma criança de oito anos com os olhos desalinhados fica cega de um olho para sempre, enquanto uma pessoa de cinquenta e oito com paralisia consegue aprender a controlar um braço robótico?

A resposta que ele propõe é a ideia mais original do capítulo, e ele apresenta como hipótese dele mesmo: o grau de plasticidade de uma região do cérebro reflete o quanto os dados daquela região mudam no mundo lá fora. Se a informação que chega é sempre a mesma, o sistema endurece em volta dela. Se a informação muda o tempo todo, o sistema permanece flexível. Dados estáveis se solidificam primeiro.

Faz um sentido enorme quando você aplica. As estatísticas do som não mudam ao longo da vida, então o córtex auditivo primário trava cedo. Já o corpo muda o tempo todo: você engorda, emagrece, calça uma bota, um chinelo, usa muleta, sobe numa bicicleta, entra na água. Um sistema que precisasse de um corpo fixo para funcionar seria inútil. Por isso as áreas motoras e as que representam o corpo continuam mudando a vida inteira.

O cérebro só muda quando erra a previsão

Tem um segundo motivo para o aprendizado adulto ser mais lento, e esse é o que mais me fez pensar.

As mudanças no cérebro são movidas pela diferença entre o modelo interno e o que acontece no mundo. O cérebro muda quando algo não foi previsto. Conforme você envelhece e vai descobrindo as regras do seu mundo, das expectativas dentro de casa ao comportamento do seu círculo social e à comida que você prefere, o seu cérebro passa a ser cada vez menos desafiado por novidade. E aí ele se assenta.

O exemplo dele é começar um emprego novo. Nos primeiros dias e semanas você está em plasticidade máxima, tudo é imprevisto, tudo exige ajuste. Alguns meses depois, a mesma pessoa faz o mesmo trabalho quase sem esforço. Nas palavras dele, a habilidade substitui a flexibilidade.

Ele faz a comparação com viajar. Em um país estrangeiro você transborda de consciência, presta atenção em tudo, aprende o tempo inteiro. É o que ele chama de voltar a ser bebê por alguns dias. Não é que o cérebro do viajante seja diferente, é que ele parou de acertar todas as previsões.

Ainda mudando depois de tantos anos

O capítulo poderia terminar em tom melancólico, e não termina. A frase que ele deixa é direta: a plasticidade diminui com a idade, mas ela diminui de forma diferente em cada região, de modo íngreme ou suave, dependendo da função. E ela nunca chega a zero. Reconfigurar-se não é privilégio dos jovens.

A evidência mais bonita que ele traz é o estudo com freiras católicas, acompanhadas por décadas, que aceitaram fazer testes cognitivos regulares e doar o cérebro para pesquisa. Algumas nunca apresentaram declínio cognitivo perceptível e, na autópsia, tinham o cérebro tomado pela doença de Alzheimer. Cerca de um terço tinha a doença instalada sem os sintomas esperados.

A explicação que ele oferece é a vida delas: responsabilidades diárias, tarefas, vida social, discussões em grupo, jogos, conversas. Uma vida mental e social continuamente ativa, em vez de uma aposentadoria que despeja a pessoa no sofá em frente à televisão. Uma vida mental ativa, mesmo em idade avançada, favorece conexões novas.

Ele também faz questão de dizer que a solidificação não é sinal de decadência, é sinal de sucesso. As redes se travam mais fundo não porque a função esteja falhando, mas porque elas conseguiram descobrir como as coisas funcionam. O que se perde em capacidade de modificação, se ganha em competência. Manter a flexibilidade total significaria manter o desamparo de um bebê.

O que isso tem a ver com Yoga

Esse capítulo me deu a melhor resposta que eu conheço para uma frase que eu ouço direto: “eu já passei da idade de começar”.

Repare no que o Eagleman está dizendo. As portas que fecham cedo são as dos sistemas cujos dados não mudam. As que ficam abertas são as dos sistemas cujos dados mudam a vida inteira. E o corpo é o exemplo número um de dado que muda a vida inteira. É por isso que o córtex motor e as áreas que representam o corpo continuam plásticas quando quase tudo mais já assentou.

Ou seja: é verdade que você provavelmente não vai perder o seu sotaque agora. Mas a porta do corpo é justamente uma das que continuam abertas, por um motivo estrutural, não por otimismo. Começar aos cinquenta ou aos sessenta não é remar contra a biologia, é usar exatamente a região que a biologia deixou aberta.

A segunda coisa é sobre como praticar. Se o cérebro só muda quando erra a previsão, uma prática que virou rotina perfeitamente previsível para de produzir mudança. Ela continua fazendo bem, continua mantendo território, mas parou de ensinar. Isso não significa trocar tudo o tempo todo, significa manter uma margem de imprevisto: uma variação de ritmo, uma transição diferente, uma posição em que você ainda não é competente. É aquele ponto em que você precisa prestar atenção de novo.

E a terceira é o estudo das freiras, que vale por si só. O que protegeu aquelas mulheres não foi um exercício específico, foi não parar. Responsabilidade, convívio, aprendizado, uso continuado do corpo e da cabeça. É esse o desenho de vida que a prática deveria sustentar, e não substituir.

Se você quer aprender a conduzir uma prática que respeita esses tempos, sabendo o que ainda pode ser mudado e como provocar essa mudança, é exatamente isso que ensinamos na YogIN® Academy.

No Capítulo 10 eu continuo a releitura, com o tema que o próprio Eagleman anuncia no fim deste capítulo: no fundo, quem você é é a soma total da sua memória. Acompanhe o blog para não perder.

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